Lembro da barriga imensa - Como pode? - Pensava.
Lembro também de todas as vezes que minha mãe, exausta, deitava na cama e me chamava "- Vem falar com o bebê! - e lá ia eu, fazer o umbigo de telefone: - Alô?! Você tá aí?! Claro que estava, e crescendo, crescendo...
Lembro do medo e da incerteza - Como seria ela?! Tinham me dito que era menina, mas meu Avô teimava em dizer que não. Tive que deixar meu berço e algumas de minhas coisas, mas no fundo não me importava, pois logo ela estaria brincando e correndo comigo.
Lembro que minha mãe se sentiu mal de repente, lembro da aflição e da correria. No dia seguinte, lembro de um telefonema que mudou tudo: ela não era ela, era ele! Sim, meu sábio avô, mais uma vez desafiara a ciência e saia ganhando.
Lembro de ficar feliz, de sair correndo pela rua do mercado até a casa da minha avó e chegando lá disparei eufórica - É menino e pesou 10 kilos! - Lembro das gargalhadas e de não ter entendido nada, mas logo em seguida meu pai me explicou que não eram 10, e sim 5 kilos...mas fiquei feliz de todo jeito.
Lembro quando ele chegou em casa, era grande e tinha a pele morena como a do meu pai, tão diferente da minha, branquinha...estávamos tão felizes, apesar de tudo ter que ser trocado do rosa para o azul e o par de brincos, presente da minha avó, acabou ficando pra mim.
Lembro que um dia depois do banho, minha mãe pra tomar conta enquanto ela preparava a mamadeira. Eu comia um pedaço de bolo de milho e não exitei, no alto dos meus 5 anos, em fezê-lo provar um pouco, e apesar de não ter dentes ele gostou. Lembro do desespero da minha mãe e dos bons tapas que tomei.
Lembro do seu primeiro aninho, que viajamos duas vezes e em uma delas fizemos o seu batismo. Lembro dos seus primeiros passos, das primeiras palavras e até do seu primeiro dentinho, lembro de empurrar seu carrinho e de ler histórias em quadrinhos pra ele dormir.
Lembro do seu primeiro dia na escola, que fiquei com ele pra se sentir seguro. Lembro de ajudá-lo nas tarefinhas e de segurar sua mão nos primeiros traços até ele aprender a escrever sozinho o seu nome.
Lembro das brincadeiras, dos briquedos e das fazendas cheias de bois e vacas que adorávamos montar juntos. Lembro do troninho azul, do cachorro Au-au, dos jogos de dominó, pega varetas, damas, do xadrez chinês, da trilha e do baralho, que ás vezes resultava em tanta briga mas também tanta diversão.
Lembro das tardes que iamos aos pastos cheios de vacas, bois e ovelhas, colocar água no cocho e nos divertirmos correndo por aquele mar de folhas verdes, muitas vezes, perseguidos pelos bichos que nele estavam.
Lembro quando aprendemos a andar de bicicleta, das voltas que dávamos em volta do quarteirão e de todas as vezes que caímos. Lembro dos patins azuis, do carrinho de controle remoto, do soldadinho de roupa camulflada que se arrastava pelo chão com sua metralhadora, dos jogos de tênis no corredor e das vezes que rolavam ele e papai no chão da sala, fazendo cócegas um no outro.
Lembro da formatura do ABC, dos desfiles cívicos da escola e do único aniversário que tive até hoje - o de 10 anos - em que ele estava mais ancioso do que eu. Lembro da felicidade em seu rosto nas fotografias e que tempos depois você teve sua própria festa surpresa.
Lembro dos constantes machucados, sempre estava com algum corte ou marca roxa no corpo, assim como meu pai, e quando chegava o fim do dia, lá iam os dois se divertirem com as caretas que cada um fazia na hora de colocar merthiolate.
Lembro quando estávamos doentes e nossa mãe passava sempre as noites em claro, dormindo entre as duas camas pra nos dar remédio. Lembro quando ela ficou doente e tive que cuidar de tudo sozinha e nem sempre do jeito mais certo.
Lembro das noites e brincadeiras na praça e da inesquecível cena do monte de terra que ele sem querer, jogou pra cima assustado quando foi surpreendido por mamãe no auge da travessura.
Lembro do cachorro Benji e dos galos campina, das baladeiras e do fundo do calção sempre, sempre rasgado e que mamãe costurava nem sempre com tanta paciência.
Lembro quando cada um ganhou seu próprio quarto e do capricho com que mamãe o decorava. Lembro da coleção de bonés, das figurinhas, da lancheira do Rambo e da camisa do Palmeiras. Lembro dos troféus e da medalha de melhor goleiro, do quiimono e do passeio com mamãe e Tia Mazé no Balneário Grangeiro.
Lembro do acidente de carro na véspera do ano novo que por pouco não se transformou em tragédia, mas deixou cicatrizes em seu rosto e no nosso coração.
Lembro das festas, dos finais de semana na fazenda e dos primeiros namoricos. Ele nunca falou nada pra mim, talvez por vergonha, mas sabia que minha mãe era sua confidente maior.
Lembro dos primeiros trabalhos, ele nunca foi de esperar por nada, sempre ia e fazia, começava a andar com suas próprias pernas. E foi em um desses trabalhos que um dia quebrou o braço e logo depois eu, ele e mamãe contraimos dengue. Fui mais forte, mas os dois passaram noites em claro com febre, delirando e rezando os dois juntos para sarar. Graças a Deus os seus pedidos foram atendidos.
O tempo passou mais um pouco, lembro do namoro ficar mais sério e os dois mesmo tão jovens já pensavam em se casar. Lembro daquela noite de Agosto que eu não estava em casa, mas quando cheguei encontrei todos em pranto - ele iria ser pai! Lembro que também chorei, de felicidade.
Lembro do seu casamento, tão simples e lindo. Lembro da casa que ajudamos a arrumar com tanto carinho. Lembro da felicidade.
Lembro da barriga dela crescendo. Parecia que vivia tudo novamente. Lembro do quartinho, das fraldas e do cheirinho de um novo bebê chegando.
Lembro do telefonema e do choro descompassado dos dois ao sair do obstetra, um mês antes do meu aniversário. Não viria um, mas dois bebês! Um menino e uma menina. O nome dele e o da nossa bisavô.
Lembro do dia do nascimento. Do nervosismo, do medo da perda. Uma mãe e dois filhos em uma sala imensa. Esperança, um choro. Lembro da rampa, duas emfermeiras, duas mantas e muitas lágrimas. As deles que acabavam de vir ao mundo e a nossa por viver aquela momento tão lindo e sublime.
Lembro da dedicação dele como pai, tão presente, reponsável e disposto. Das fraldas até a amamentação ele ajudava. Achava aquilo tudo tão lindo, pois nosso pai nunca cuidou de nós como ele cuidava dos seus filhos.
Lembro...eu lembro.
E lembro de tanta coisa que não queria lembrar...
Dor, sofrimento e muitas, muitas lágrimas como as que derramo agora.
Lembro que, há 25 anos atrás quando ele chegou, nos já o amávamos...
Lembro que um dia ele pode lembrar ao ler essa pequena história da sua vida que lembrei, mas ele esqueceu.
